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  • Foto do escritorBianca Gulim

O tal do estilo literário

Atualizado: 16 de nov. de 2023

O que é o estilo do escritor? Pergunta difícil de responder. A primeira resposta que me ocorre é: a forma como o autor conta a história. Mas com essa resposta eu estaria dizendo que todo escritor tem estilo, afinal todo escritor conta uma história. E eu não acho que todo escritor tenha estilo.


Que tal chegarmos a essa resposta juntos?



Proponho dois exercícios. O primeiro é: pense nos últimos livros que você leu, aqueles que estão frescos na sua memória. O que você se lembra desses livros? Se a resposta for só os fatos narrados, o que aconteceu naquela história, o escritor desse livro não deve ter estilo. Agora se você se lembrar não só dos fatos narrados, mas também da maneira como eles foram narrados, provavelmente esse escritor tem estilo. Mais um exercício: pense no seu escritor favorito. Por que ele é o seu escritor favorito? Provavelmente sua resposta não está relacionada aos fatos narrados, e sim à maneira como ele o faz: ele confunde você, e o final é sempre surpreendente, diferente das suas teorias; ele vai direto ao ponto, não investe páginas e páginas em descrições; o texto dele é simples, ágil, com frases curtas e impactantes; os personagens dele são sempre críveis, você até reconhece amigos neles; narra em terceira pessoa, mas os narradores sempre carregam uma certa acidez, abusam do sarcasmo…


Está entendendo o meu ponto?


O estilo do escritor são as particularidades da sua escrita, pelas quais ele é lembrado, é reconhecido, são as marcas que ele deixa no texto. É o motivo pelo qual ele vale a pena ser lido; aqui entra o público-alvo: um estilo pode agradar uns e desagradar outros.


Nenhuma história é nova, é original. O fã de romance lê diversas vezes a “mesma história” — os mesmos conflitos, as mesmas saídas para estes, as mesmas motivações, os mesmos perfis de personagens —, assim como o de suspense, o de terror… O que muda é a forma como essa “mesma história” é contada. 


O estilo de um escritor é a forma como ele consegue trazer originalidade — porque a ideia, amigo, alguém já teve antes.


Clarice Lispector é conhecida pela prosa poética e filosófica, pela narrativa marcada pelo fluxo de consciência que chega a alcançar o monólogo interior, pela complexibilidade da estrutura, pela essência introspectiva, pela linguagem complexa, frases difíceis de compreender, por vezes desconexas, usando palavras que não se encaixam no contexto, algumas que nem existem, criadas por ela. Explorava o cotidiano, o ordinário, para criar histórias extremamente profundas. Os personagens são sempre focados em si e em seus pensamentos. 



Imagem: digulvação; Clarice Lispector e Stephen King


Stephen King, por sua vez, ao mesmo tempo que traz uma linguagem informal, coloquial, acessível, abusa de frases longas, com construções às vezes um pouco complexas. Suas descrições são extensas, detalhadas. Seu texto é cheio de metáforas profundas, analogias. Seus personagens são quase sempre marginalizados, em posição de inferioridade; extremamente verissímeis, apesar de normalmente terem características sobrenaturais. É comumente reconhecido pelo tipo de terror que causa repulsa.


Dificilmente um fã de Clarice não vá reconhecer um texto dela mesmo sem saber que é dela; o mesmo para o de King.


Há escritores, principalmente aqueles inexperientes, que apenas narram os fatos; não há particularidades em sua forma de contar histórias, seus textos são neutros. São escritores que ainda não encontraram seu estilo.


E encontrar o estilo não é tarefa fácil para a maioria, embora eu creia que aconteça naturalmente, podendo ser impulsionado por estudos. É algo que vem com o tempo, com a experiência, por meio de testes, de tentativas, que, quanto mais assertivos, mais o aproximam do objetivo. Muitas vezes, é a soma das particularidades dos autores que inspiram o escritor — e tudo bem, porque, sério, hoje nada é novo, nada é original, tudo já foi feito. 


Entendo que o que faz com que o escritor encontre seu estilo é a inconformidade.


O bom escritor, aquele que se destaca, que conquista seu espaço em um mercado tão competitivo, é aquele que não se conforma com um texto bem escrito. Ele até pode finalizar um primeiro original após estar apenas bem escrito, mas sabendo que no próximo ele irá além. E no outro também. E assim por diante. Lá pro seu quarto, quinto livro, talvez ele comece a se encontrar, e o leitor, a perceber seu estilo.


A literatura exige mais do que um texto claro, coeso, coerente; exige mais do que uma história sem furos, com começo, meio e fim. E se você, escritor de ficção, ainda se limita a isso, saiba que precisará ir além se quiser se destacar no ofício. E é persistir na busca desse além que, na minha opinião, fará com que você forme seu estilo.


E você, já encontrou o seu estilo ou ainda está procurando?


Até a próxima!



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